sexta-feira, 11 de abril de 2008

A metáfora do sucesso

“ Úrsula tinha descido da sua montada, e assistia à rapidez com que dom arbusto se separava do seu ser só humano, à medida que a Ovelha Rasteira lhe comia as folhas; vinha-lhes, à linguagem perfumada que utilizavam, o termo transumância." [1]


T
endo em conta que, em 1578, Portugal ficou órfão, desprovido de poder organizativo, militar, monárquico e sem a segurança de um elemento orientador, o rei, Llansol contraria estes factos históricos com a transmutação de Dº Sebastião em dom arbusto para reescrever a incógnita em que o país vivia no século XVI, visto que um arbusto é capaz de sobreviver nas mais áridas condições. Para além de ser um organismo botânico resistente e preparado para os mais rigorosos ambientes, este obtém protecção e força da árvore Prunus Triloba, propiciando assim um desaparecimento progressivo dos vestígios residuais de Dº Sebastião.

A escrita de Llansol é “transumante”, procurando terrenos férteis que surgem nesta obra como a reescrita sebastianista. O último capítulo do livro recria uma cena frequente no pastoreio de ovelhas onde estas granjeiam pastos mais férteis em busca de alimento, nomeadamente a folhagem de dom arbusto. A chegada destes animais revela que os pastos onde estão são ricos e produtivos, confirmando a completa desconstrução de Dº Sebastião, o REI, num elemento botânico desumanizado mas fecundo. Este tem a possibilidade de autoregenerar-se, voltar a criar uma folhagem livre do mito sebastianista. As folhas que o acompanharam na transmutação deverão servir de alimento fértil às ovelhas e a quem lê a obra, acabando, assim, com o dogma mitológico do encoberto. A autora conseguiu pastorear a sua escrita a pastos mais ricos e férteis livres da impostura da escrita e da História.

[1] LLansol, Maria Gabriela, Causa Amante, p. 164

Bibliografia:

  • BAKHTIN, Mikhail. 1988. Questões de literatura e estética: a teoria do romance. São Paulo: HUCITEC. pp. 100-106.
  • SEIXO, Maria Alzira. 1986. A palavra do Romance. Ensaios de genealogia e análise. Lisboa: Horizonte Universitária. pp. 229-232.
  • SOARES, Maria de Lourdes. «Casas-de-Escrita» in MAGALHÃES, Isabel Allegro et alii. 2000. Actas do III Congresso da Associação Portuguesa de Literatura Comparada. Lisboa: Edições Colibri. pp. 969- 978.

0 comentários: